Sunday, February 26, 2006

AMNÉSIA

Portugal está a cerca de 60 minutos de sair da crise, dessa terrível ceifeira que nos vai ao bolso a cada dia que passa! É verdade meus amigos, podem não acreditar mas é verdade.
Durante cerca de 90 minutos o país esquecerá todas as dificuldades económicas e sociais. Acho que estou a ser pessimista, 90 minutos é o mínimo uma vez que se houver polémica e violência temos alimento para uma semana, na pior das hipóteses.

O estádio, os cafés e as casas particulares serão os impulsionadores desta revolta económica e social. Cada revolucionário que se preze, estará com um cachecol, com uma bandeira ou com um pensamento positivo, depende é da cor e dos credos de cada um.

Durante 90 minutos o país ficará amnésico, sem problemas económicos e financeiros, com um consumo de cerveja per capita superior a qualquer outro país do sul da Europa, enfim, seremos, pelo menos uma vez, os primeiros! Os primeiros no esquecimento.

É pena que o espírito do dia-a-dia não seja este, o dos 90 minutos. O de olhar para a frente com o intuito de conquistar...lutar para ser o melhor, o campeão...de sofrer para ser o primeiro. No quotidiano isto não interessa, quem se queixar mais é o maior...quem se dispõe a fazer sacrifícios? Ninguém. Quando o clube precisa de apoio temos devoção incondicional! Quando o país precisa de apoio, o que é que temos? Todos, desde que não se deixe tudo na mesma.

Porque é que não vemos o país como um grande clube de futebol, em que o campeonato seria o Europeu e os restantes clubes os países da União Europeia. Cada um sofreria, lutaria, faria sacrifícios, gritaria de orgulho de ser Português, não só pelo futebol, mas por um país competitivo.

3 Comments:

Blogger Zé Côdeas said...

Pois é... Já Marx dizia que a religião era o "ópio do povo". É que o futebol ainda não tinha sido inventado!

O poeta Juvenal, por seu lado, descreve-nos a alegre "preocupação" do povo romano na época imperial: "panem et circenses", ou seja, pão e circo. Barriguinha cheia e divertimento q.b.

Passados tantos séculos, a coisa não mudou assim tanto! Também existiam corridas de cavalos (com as quadrigas), e haviam claques: uma versão antepassada de "lagartos" e "lampiões":)
Também eles eram uns selvagens como o são alguns elementos das nossas claques.

O que é preciso mesmo (do ponto de vista dos políticos, de ontem e de hoje) é a alienação do povo, seja de que maneira for. A ditadura já lá foi mas os seus princípios não: os meios de comunicação social contribuem para este estado de coisas. Para certo tipo de interesses...

Pensa quem quer pensar... Mas, isso, requer trabalho e informação: quantas pessoas é que se preocupam com isso? Barriguinha cheia e muito divertimento... "Mai nada!"

Uma sociedade medíocre dificilmente gerará políticos competentes: ou alguém tem dúvidas em reconhecer certos "tiques" em tantos dos nossos políticos?

Que fazer? Desistir? Estaremos condenados ao insucesso? Acho que não, não sou fatalista: acredito na capacidade de regeneração da sociedade portuguesa, de saber ultrapassar as dificuldades. Mudar as mentalidades (para uma cultura de exigência) leva tempo e não nos podemos esperar tanto. O pior que poderemos fazer é ficar sentados à "sombra da bananeira", a lamentarmo-nos disto e daquilo, dos políticos, etc, etc... Os Finlandeses sabem que têm aspectos menos positivos e, lá por isso, não se deixam abater. Sabem que os seus políticos também erram, podem ser corruptos mas, ainda assim, não andam a queixar-se todo o dia. Nós, pelo contrário, somos uns eternos insatisfeitos. Porque é que cá as coisas funcionam bem? Porque os políticos dizem x e o povo faz X (pode estar em desacordo mas faz)... Existe um clima de confiança, um pacto social entre políticos, empresários,trabalhadores, etc... Há respeito pela autoridade do Estado (porque o Estado também se comporta de maneira honrosa para com os cidadãos)... Em suma, pensa-se no BEM COMUM.

Enfim, que cada qual, no seu pouco espaço de manobra, faça o que pode e já estará a contribuir para o bem comum. Sim, porque, muitas vezes, o português sabe de tudo:
é professor, é engenheiro, é médico, é... O finlandês é mais humilde, quando não sabe, cala-se: não se mete a inventar nem faz "figura de urso", falando ao desbarato. Assim ganham mais...
Por outro lado, se continuarmos a culpar-nos uns aos OUTROS, à espera dos OUTROS, nunca chegaremos a lado nenhum. E, nos pequenos gestos, na palavra útil e oportuna, poderemos contribuir para as grandes obras. Haja vontade para tal e essa tem de partir de cada português...

8:15 PM  
Blogger Bluedrake said...

Ora bem... Eu sou o pessimista cá do sítio o gajo que fala mal de tudo e todos e passa o dia a queixar-se que nem uma velha de 90 anos com ciática.
Desculpem mas eu não acredito na mudança! Não acredito que a nossa mentalidade mesquinha mude. E a palavara é mesmo essa "nossa". Porque se somos nós que fazemos a difereça se repararmos bem somos nós que nos gabamos da fuga aos impostos, do que deveriamos fazer e não fazemos porque nos vamos safando, do olho aberto para o que fazemos melhor "desenrascanço" uma palavra que se alplica na perfeição à nossa mentalidade hoje em dia. (http://en.wikipedia.org/wiki/Desenrascan%C3%A7o)
E eu não sou excepção à regra, como acredito que nenhum de nós o seja. Tento ser o mais profissional possível no meu trabalho, mas mais cedo ou mais tarde com a exposição prolongada aquele tipo de mentalidade onde quem lixa o parceiro é o maior, o parceiro às tantas chateia-se acaba por responder à letra. Caímos numa mentalidade decadente, isolada, desacreditada, pouco profissional e pouco produtiva.
Por outro lado sim A politica está muito mal, e não vai melhorar.
Simples e directo, quem é que de nós acredita no discurso de um político?
Cada vez mais somos um país de terceiro mundo é bom que tomemos consciência disso se queremos acreditar na dita regeneração da sociedade portuguesa.

3:40 PM  
Blogger Zé Côdeas said...

Pois, eu sei que o Bluedrake sabe que sei que ele tem razão naquilo que diz. No entanto, eu não seria assim tão pessimista. Acho mesmo que até podria ser mais "pessimista": ainda não tocámos no fundo, podemos piorar ainda mais. Por vezes é mesmo necessário que a situação chegue a esse ponto... Vamos tendo uns paliativos, uns dinheiritos da UE, uns comem daqui, outros dali e, no fundo, lá vamos andando todos contentes. Ganhamos no curto prazo mas perdemos a médio e a longo...

Já estava mesmo a adivinhar que "alguém" iria fazer referência ao artigo da wikipedia... No entanto, só se pensa no lado mau do "desenrascanço"... Mas também tem um lado positivo. Se compararmos então com outro povos, é flagrante! Só é pena que as ocorrências positivas do dito fenómeno sejam de baixa frequência em Portugal: Expo98, Euro2004... Quando há uma ideia, um projecto, o povo é capaz de unir-se em volta dessa ideia e mostrar que podemos talvez não ser melhores que os outros povos mas, pelo menos, ser tão bons como eles. Isso do povo português ser desorganizado ou mandrião é cultivado pelos próprios Portugueses pois são as próprias pessoas que têm uma imagem negativa de si mesmas enquanto povo. Quando faltam as referências, o mais certo é o barco "andar à deriva". Então, sem um "homem do leme", ainda pior ficará...No entanto, se não houver, na tempestade, alguém que se predisponha a remar "contra a maré", contra a adversidade, aí é o barco se afunda mesmo!

Também eu, no meu trabalho, muitas vezes vejo desânimo, descrença,falta de vontade, falta de aplicação, etc, etc... Cada qual "a remar para o seu lado". Se eu fizesse sempre o que fazem alguns colegas, não haveria nem ambiente, nem ensino que resistisse. Cada qual tem a sua missão e sinto-me satisfeito por estar a cumprir a minha (por mais pequeno e insignificante que possa parecer o seu alcance)... Manter o empenho e não deixar abater-se pelas contrariedades é, pois, importante. Isso de lixar o parceiro tem que se diga: quem faz o que deve, a mais não é obrigado. Importante é também saber "jogar" com as situações, para que ninguém seja "lixado". Já trabalhei numa empresa e, mais cedo ou mais tarde, das duas uma: ou é "apanhado" o responsável ou fica a perder a empresa... "Mai nada"!

Isso das mentalidades também se combate... Se os professores (sim, esses malandros) estivessem sempre de acordo com o clima de facilitismo que é imposto de cima (do ME) e de fora (da sociedade), estaríamos ainda pior do que estamos hoje... Admite-se que uma directora de turma venha pedir quase por favor a um professor que dê positiva a uma aluno, para que ele não chumbe o ano? Para que essa mesma directora "fique bem" com os encarregados de educação? Para que não tenha problemas com o Conselho pedagógico? Até eu percebo o ponto de vista dos directores de turma... Só graças a uns professores "com tomates" é que ainda vamos conseguindo impor alguma ordem e respeito onde já vai rareando. Essa mentalidade já começa "por baixo", pelos bancos da escola... "Tive 3, deu para passar"... Mas isto não se sabe (nem passa na Comunicação Social)...

Concluindo, o pior que podemos fazer é "deixar passar o navio"...

E, com isto tudo, espero não ter "metido muita água"...

10:14 PM  

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